Vergel (Crítica)

Gustavo Adriano

Vergel conta a estória de uma mulher que estava de viagem com seu marido na argentina, e o mesmo acaba morrendo, afim de levar o corpo para ser enterrado no Brasil, a mulher precisa aguardar a burocracia do pais que está, em meio ao luto ela começa a parar de viver, até que uma vizinha surge e a ajuda a lidar com sua dor.

O longa é assinado e dirigido pela argentina Kris Niklison, a cineasta consegue tratar o luto de uma forma bem crua e realista, a mulher da estória não fica o tempo inteiro chorando ou romantizando tudo, pelo contrário, ela não sabe como agir perante aquela situação, e simplesmente trava, seu olhar se torna vazio, prefere se deitar e não se mover, a roupa se mantém a mesma, os únicos momentos em que isso se altera são quando ela precisa ligar para o necrotério afim de liberar o corpo de seu falecido marido, apenas para se afundar mais, a cada ligação algo acontece e parece ficar mais longe de conseguir o corpo, e quando dizem que não tem outra escolha a não ser aguardar que a contatem, ela novamente não sabe como agir e simplesmente explode sua frustração.

E esse momento é quando o roteiro, de forma muito inteligente, começa a mostrar que a vida não parou, e vemos um vizinho do prédio a frente trabalhando em uma composição musical, crianças de um outro prédio brincando na varanda, e inconscientemente, a mulher aos poucos começa a se mexer, volta a tomar banho, os barulhos da rua chamam a sua atenção, só que aí a realidade bate, e a solidão surge, trazendo o luto novamente.

Ela começa a se lembrar de seu marido, até que trava mais uma vez e tudo que ela faz é se lembrar dele, quando surge a figura da vizinha, que simplesmente era quem regava as plantas do apartamento, essa pequena mudança parece mostrar novamente que a vida ao redor não parou, e a mulher volta a se mover, dessa vez com força, passa a limpar a casa, troca de roupa, abastece a geladeira, e aos poucos as duas começam uma amizade, até que se envolvem, e o roteiro mostra como foi bem escrito, a mulher esquece o imbróglio com o corpo do marido e nos envolve nesse relacionamento com a vizinha, até o luto retornar, e o roteiro se equilibra entre senti-lo e supera-lo, o tom vai mudando e vemos a realidade, como mencionado, de forma crua.

Se o roteiro acerta em não romantizar tudo, a direção o complementa de uma forma absurda, no começo do longa a câmera é sempre perto, fechada na mulher, a isolando de tudo e consequentemente, nós também acabamos passando por isso, e quando ela vai melhorando, gradativamente a câmera vai se afastando, inclusive quando a vizinha surge, em nenhum momento as duas estão juntas, e quanto mais elas se envolvem, o isolamento vai diminuindo, então o apartamento dobra de tamanho, encaixando-as no enquadramento, assim como nos vizinhos da rua, de repente vemos os prédios por completo, um momento de muita importância é o final, durante todo o longa a câmera é fixa, apenas no final ela se move e anda junto com a mulher, mostrando que ela voltou a vida.

Camila Morgado que já havia surpreendido em O Animal Cordial, se entrega de corpo e alma na sua personagem, os momentos de luto são completamente diferentes de quando começa a se relacionar com sua vizinha, e principalmente quando a realidade retorna e ela é quebrada emocionalmente, também surpreende nos momentos íntimos e explícitos, é uma atuação crua e realista.

Maricel Álvarez parece demorar um pouco a entrar na personagem, mas quando o longa precisa da presença dela, sua atuação cresce, e a química com Camila é ótima, ela consegue mostrar a leveza e alegria de sua personagem, ao mesmo tempo que entrega uma boa profundidade, e contrasta muito bem com o luto que ajuda a sua vizinha a tentar superar.

Vergel não é um filme muito fácil, apesar de ser simples em sua execução, a morte do marido não é mostrada, e apenas conhecemos um pouco dele em algumas cenas quase na metade do longa, porém, o peso do luto é sentido desde o começo, sabemos que aquela mulher está sofrendo muito, e vamos aos poucos conhecendo o motivo de tanto sofrimento, enquanto vemos, dia após dia, as coisas melhorando aos poucos, e a vida vai acontecendo, quer ela perceba ou não.

E essa melhora é mostrada também de forma crua e realista, quanto mais a mulher vai melhorando e o luto vai diminuindo, com os dias sendo mais alegres e as figuras dos vizinhos vivendo suas vidas comuns ficando mais constante, mostrando que aquela mulher está retornando ao comum e basicamente desaparecendo na multidão, o final é perfeito em mostrar que o luto faz parte de todos nós.

SINOPSE

Em pleno verão, uma mulher brasileira (Camila Morgado) espera o corpo do seu marido que foi morto durante as férias do casal na Argentina. A burocracia é tanta e a espera tão longa que ela começa a perder a noção do tempo e o senso de realidade. O apartamento onde ela está hospedada é cheio de plantas mas ela sequer consegue cuidar delas. Até que uma vizinha (Maricel Álvarez) se oferece para ajudar a regar e a mulher encontra nessa desconhecida alguém com quem compartilhar sua dor.

DIREÇÃO

Kris Niklison Kris Niklison

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Milos Kris Niklison
Título Original: Vergel
Gênero: Drama
Duração: 1h 26min
Classificação etária: 16 Anos
Lançamento: 7 de fevereiro de 2019 (Brasil)

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