Minha vida em Marte (Crítica)

Magah Machado

Mônica Martelli tornou-se um sucesso com seu monólogo de estreia “Os Homens são de Marte…é para lá que eu vou” em 2005. A peça auto-biográfica decolou calcada em propaganda orgânica, ficando nove anos em cartaz. Evoluiu para uma fórmula comercial de comédia, convertendo-se em filme e mini série. Uma história triunfante do alter ego de Martelli, Fernanda, que caminha com passos firmes e largos desde 2014 desempoderando a mulher brasileira e estreia agora nova fase. Uma nova chance.

Na sequência da saga da personagem Fernanda, sua dita “vida em Marte” no tão sonhado casamento desmorona. Em ato falho, o longa mostra uma mulher ególotra que infantiliza o parceiro, sem colocar-se em seu lugar um segundo para ouvir como ele se sente no relacionamento. Em meio a uma crise conjugal intransponível, a jornalista e produtora de eventos busca consolo em retiros de yoga de final de semana, festas de swingue, shows de Anitta e viagens de compras a Nova York. Sempre de olho naquele gatinho, invariavelmente mais esperto que ela. Cai em todas as tapeações, desde o professor/pegador sarado de hidroginástica até o executivo casado em viagem de solteiro. Sua filha de 6 anos é mantida à parte de tudo até que, durante a recuperação de Fernanda em seu período de luta por esta perda, a personagem simplesmente desaparece da história Aos 45 anos, divorciada de Tom (um apático Marcos Palmeira), Fernanda re-assume, enfim, a solteirice com os mesmos hábitos e o mesmo e único amigo, seu sócio Aníbal (o ótimo Paulo Gustavo). Fica comprovado que não era o amor o seu objetivo no casamento, e sim atender a uma exigência de sua classe social. Agora com seu novo estado civil, tudo mudou para ficar igual ao que era antes.

Apesar de incorporar um personagem cliché, a segurança da atuação de Paulo Gustavo é um ponto focal que sustenta a produção e estimula uma boa receptividade à alienada Fernanda. As doses de nonsense necessárias à comédia podem entreter, mas não cativam. Algumas são até boas, como as traduções do português para o inglês, campo sempre fértil para boas risadas.

Mas, a aposta em um único núcleo narrativo, a dupla estereotipada de mulher hétero com amigo gay que a salva de apuros, torna o longa cansativo. Com absolutamente todas as ações centradas nos dois protagonistas e cortes breves, a dinâmica cênica do filme se esgota rapidamente.

A dúvida sobre o momento em que a relação está com prazo de validade vencido é a mais interessante exploração do texto, apesar da superficialidade de descobertas como “a felicidade está dentro de você” e “um amigo que te apoia é tudo de bom”. Há uma perda com expressões faciais copiosas, que esvaziam algum possível significado da narrativa. A obviedade do desenrolar da trama também é notável.

No todo, Minha vida em Marte é mais uma investida do olhar normativo e hegemônico feminino sobre as decisões que a mulher pode tomar em sua vida. A principal delas que é mostrada no longa é a decisão de se divorciar, uma novidade que em 2017 completou 40 anos. Na visão de mundo da protagonista, auto-centrada e isolada em uma bolha, pois não apresenta nenhuma antagonista ou mesmo uma amiga “que já se divorciou” (inverossímil), o fim do casamento deve ser evitado a todo custo, é preciso lutar para salvá-lo. O amor romântico está acima de tudo.

É fácil entender o lugar de fala de Martelli quando ela proclama seus feitos e conquistas nesta entrevista, com orgulho, inserida no pedaço de mundo privilegiado onde funciona o engodo chamado meritocracia. Seu merecimento vem de distinções como mulher branca, linda, de classe média vitaminada e oportunidades, mesmo que pequenas, de carreira artística no maior player do audiovisual do país, como a série global Por Amor, (1997) como Paula Medeiros. O triste é que sua escolha seja sempre a mesma: compartilhar estas experiências sem nenhuma alteridade.

Ao criar uma nova obra em sua carreira com Minha vida em Marte colocou a cereja no bolo: a produção de José Alvarenga Jr. (Globo Filmes) traz um filme escolhido a dedo para animar as férias do seu público cativo. Puro entretenimento para relaxar as mentes sempre relaxadas. E, ao final, a chance de alçar algum empoderamento da mulher foi, novamente, perdida.

SINOPSE

Fernanda (Monica Martelli) está casada com Tom (Marcos Palmeira), com quem tem uma filha de cinco anos, Joana (Marianna Santos). O casal está em meio ao desgaste causado pelo convívio por muitos anos, o que gera atritos constantes. Quem a ajuda a superar a crise é seu sócio Aníbal (Paulo Gustavo), parceiro inseparável durante a árdua jornada entre salvar o casamento ou pôr fim a ele.

DIREÇÃO

Susana Garcia Susana Garcia

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Susana Garcia
Título Original: Minha vida em Marte
Gênero: Comedia
Duração: 1h 45min
Classificação etária: 12 anos
Lançamento: 25 de dezembro de 2018 (Brasil)

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