MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS (Crítica)

Juca Claudino

Não haverá silenciamento. E nem invisibilização.

Em primeiro lugar, a justiça de eu assumir que o feminismo não é o meu lugar de protagonismo, enquanto alguém do gênero masculino, deve ser antecipada ao máximo. E, sendo assim, peço licença para que possa tratar do tema nesta crítica sobre “Mexeu com Uma, Mexeu Com Todas”.

Um dos mais esperados filmes do Festival É Tudo Verdade, o histórico festival de documentários anualmente ocorrido na capital paulista, o longa feminista – e, por mais decepcionante que isto seja, são poucos os filmes anualmente lançados em cartaz que assim podem ser denominados (e a invisibilização das mulheres no mercado e nos círculos artísticos é uma causa óbvia) – de Sandra Werneck mostra grande maturidade discursiva quanto a forma que costura os argumentos que são explorados, conseguindo fugir de uma redução simplista do machismo a um mero apêndice superficial da sociedade e o trata de forma justa, ou seja, denotando a sua constituição neutralizada e estruturada na formação da nossa contemporaneidade.

O machismo faz parte das ideias prontas com as quais somos educados, ainda é parte de uma mentalidade que se apresenta até mesmo como senso comum. Um dos livros mais importantes da história acerca desse tema, “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, nas palavras da professora e filósofa Magda Guadalupe dos Santos, tece sobre esta característica do machismo quando assume “a categoria existencial da diferença, indicando, seja ‘a mulher’, seja ‘as mulheres’, como constrangidas ao protótipo de alteridade enquanto o ‘outro’ do homem, e, pois, da cultura”. É evidente que o processo de formação histórica que nos formou enquanto sociedade construiu um ideal de invisibilização da mulher em sociedade a partir das normas do patriarcado, o que infringe uma enormidade de liberdades e direitos. Devemos lembrar que a igualdade é um valor moral, e não é difícil de perceber que esta não se estabelece entre as relações sociais e familiares de homens e mulheres. Alguém já ouviu coisas do tipo “lugar de mulher é em casa”, “lavar a louça é coisa de mulher”, “mulher tem que ganhar menos que o homem”, “mulher não pode se vestir assim ou assado” ou ainda “tem muita mulher que merece apanhar”?

Esta última frase é sobre a qual “Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas”, de Sandra Werneck, vai selecionar seu tema sobre os vários que perpetuam o machismo. O documentário da carioca é sobre, em primeiríssimo plano, violência doméstica e violência contra a mulher. São entrevistadas Maria da Penha, Luiza Brunet, Joanna Maranhão. São estas as de nome mais conhecido, contudo a grande justiça de Werneck foi a de entrevistar mulheres que não tiveram acesso a universidade, são exploradas de forma muito mais desumana pelo capitalismo, são negras, são da periferia. Pois a estas, não só há a invisibilização por ser mulher, mas há a de ser negra, a de ser periférica. “…Não existem ondas específicas em relação ao feminismo negro porque as mulheres negras foram silenciadas no interior do movimento [feminista]”, já afirma a acadêmica Djamila Ribeiro. Carolina Maria de Jesus já deixa muito claro: “odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre”.

E obviamente as falas de todas aquelas mulheres vítimas de violência doméstica EXPLICITA que o intuito do gesto de seus maridos era o da perpetuação de um ideal – deplorável – de submissão da mulher frente a figura masculina, de repressão de seus direitos pela obediência às decisões as quais o homem impunha a ela e que, obviamente, eram decisões que reforçavam a exploração da mulher em espaço domiciliar, o seu silenciamento Na dinâmica política da sociedade e, inclusive, a sua objetificação sexual para que o marido assim usufruísse – “Na avenida deixei lá / A minha fala, minha opinião / A minha casa, minha solidão”, diz a música de Elza Soares, mulher, sambista e negra, tendo vivido na pele a hiperssexualização da mulher negra sincrônica ao seu papel social de “sem voz”.

As falas são muito precisas nisso: “somos educadas a sermos assim”, dizem quase todas as entrevistadas. A perpetuação da mentalidade de objetificação da mulher, da cultura do estupro, da lógica patriarcal como algo natural, neutro… As suas falas explicitam o estorvo, o abatimento, a humilhação e a depressão que é ser vítima de casos como os de violência doméstica, e todas lá são muito corajosas em denunciar aquela cultura e assim expor suas marcas nelas mesmas. Algo que eu, e todos aqueles de gênero masculino (cisgênero) nunca saberemos o que é sentir ou temer que aconteça. Logo, de saída, já me desculpo por algum termo que utilizei e não traduz os reais efeitos opressivos do machismo e se, em algum momento, fui raso e simplista em minha análise daquilo que o filme fala.

Mas deve-se falar também que, mesmo com a precisão de Werneck em costurar os argumentos e caracterização das causas da perpetuação da cultura machista, o filme acaba por ter uma linguagem demasiada protocolar e sem a originalidade que lhe impulsionaria maior veemência artística. A edição segue um padrão um tanto comercial e sem originalidade ou autoria. As escolhas tomadas nesse aspecto parecem as das mais estandardizadas por um padrão industrial possíveis, e isso obviamente faz com que o longa perca parte de sua transcendência artística.

Contudo, não podemos nos deixar levar por esse aspecto, e reconhece o belíssimo e maduro trabalhado realizado por Sandra Werneck que, dentre outros filmes, fez “Sonhos Roubados”, “Cazuza – O Tempo Não Para” e o documentário “Meninas”

Pôster de divulgação: MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS

Pôster de divulgação: MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS

SINOPSE

Com entrevistas de vítimas de abuso sexual, o documentário aborda a questão da violência contra a mulher e a importância do apoio às vítimas. A narrativa do filme é criada a partir de um conjunto de entrevistas com mulheres influentes no país como a ex-modelo Luíza Brunet, a nadadora Joana Maranhão e a farmacêutica Maria da Penha – que dá nome à lei que criminaliza a violência contra a mulher.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Sandra Werneck” espaco=”br”]Sandra Werneck[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Julia de Abreu
Título Original: Mexeu com uma, mexeu com todas
Gênero: Documentário
Duração: 1h 11min
Classificação etária: 12 anos
Lançamento: diretamente para TV e no Festival é tudo verdade

 

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