KOREAN WAVE E INDUSTRIA CULTURAL | Parte 1

Andressa Gomes

KOREAN WAVE1

Hallyu ou Onda Coreana é o termo usado pela mídia para se referir a crescente invasão da cultura pop coreana na Ásia e no resto do mundo. O termo foi cunhado ao fim dos anos ’90, por jornalistas chineses surpresos com o sucesso da cultura e do entretenimento coreano em seu país.

Após o fim da Ditadura no país no início dos anos 90, o governo sul coreano decidiu investir na qualificação e exportação de sua cultura para demarcar e criar uma esfera de influência, necessária a consolidação do país e sua identidade. Assim, o governo, de maneira planejada, incentivou a criação de empresas e corporações nacionais, que desenvolvessem produtos culturais coreanos a fim de impedir a dominação cultural feita pelos países vizinhos. A partir daí, nasceram as grandes empresas de entretenimento do país.

Já no final dos anos 1990, como resultado dessa estratégia do Governo, a cultura pop da Coreia do Sul começou a se espalhar pelos outros países da Ásia, como Coreia do Norte, China, Japão, Taiwan e Hong Kong. Com a expansão da internet e o advento das novas mídias, ocorreu uma potencializarão do fenômeno Hallyu e de seu alcance. Na Coreia do Sul, o fenômeno tem grande impacto na economia, de forma direta através do lucro com a exportação de conteúdo de entretenimento, e de forma indireta, com o aumento do turismo.

As três principais bases do Hallyu são: A música pop (k-pop); as novelas/minisséries televisivas (chamadas na Ásia de dramas – as coreanas são os k-dramas); e o cinema. Desde o início da onda coreana, o governo sul-coreano já investiu quase US$ 1 bilhão em medidas de promoção e proteção da propriedade intelectual, e na construção de centros de estudo e divulgação da cultura coreana em outros países. Internamente, milhares de empregos diretos ou indiretos são sustentados por esse mercado. Sucesso como o do artista Psy, que possui o vídeo mais curtido da história do youtube com seu Gangnam Style, não é apenas fruto da espontaneidade do público, mas também reflete o resultado de uma estratégia de expansão cultural do Governo Sul-Coreano, iniciada há anos.

Assim como os agentes da expansão tecnológica (empresas como LG e Hyundai), os agentes da expansão cultural coreanos parecem ter aprendido com outras nações, observando o sucesso mundial dos filmes americanos, das músicas britânicas e dos games e animes japoneses no século XX, a respeito de estratégias de construção de identidade nacional através da cultura de massa e de como tornar essa cultura atraente, acessível e capaz de cultivar um público fiel em outros países.

Pode-se fazer uma analogia da Hallyu com Hollywood e seu processo de dominação cultural. Se durante os anos 1940/1950 o star System foi predominante no modelo de produção da maioria dois estúdios, quando se trata da Hallyu, e da fomentação da cultura de ídolos ( Idol Culture) na Coreia, existem diversos padrões que se repetem. Assim como ocorria na época de ouro do cinema americano, as estrelas coreanas possuem contratos longos e exploratórios com as empresas que nelas investem, tem sua imagem, nome, e estilo “padronizados”, e grande preocupação na promoção da sua pessoa pública, mas do que seu talento. No geral, as estrelas coreanas são treinadas pelas empresas, com aulas de atuação, música, dança, etiqueta, línguas estrangeiras, etc. Aqueles que aspiram ser ídolos, são conhecidos como trainers. Se na cultural ocidental existe certa tolerância por parte dos fãs quando ocorrem “deslizes” por parte do ídolo, ou mesmo quando este não corresponde as suas expectativas, na Coreia existe uma grande pressão para que se mantenha a imagem perfeita. Pouco se sabe da vida pessoal da maior parte dos ídolos coreanos. Portanto, existe uma espécie de código de conduta, uma clausula moral em seu contrato profissional. Através desse comportamento, o público também acaba criando expectativas e se tornando cada vez mais certo e exigente com relação a como os ídolos podem ou não se comportar.

Ainda que no Ocidente também existam exemplos de artistas que tem sua imagem moldada, na Coreia, isso é levado a um extremo, que se suporta na própria sociedade coreana, que possui valores e normas que podem ser vistos como mais exigentes com relação aos jovens, principalmente. Na Coreia do Sul, o estudo é muito, muito, muito importante e valorizado; então quando um adolescente decide largar a sua vida estudantil (que é o que acontece com quem torna-se trainee), ele está colocando-se em uma condição onde só há duas opções: dar certo ou dar certo. Sequer passa pela cabeça de pais sul-coreanos que o seu filho falhe em se tornar um k-idol, visto que abandonou os estudos para torna-se um.

Como já foi dito acima, trata-se de uma indústria bilionária que traz muita prosperidade para o país. Os grandes agentes de comunicação usam de seus contratos para controlar seus “produtos”. Os consumidores da indústria cultural, aceitam bem esse modelo, porque realizam seus sonhos e renovam suas esperanças através da imagem e dos misticismos envolvendo a imagem dos ídolos.

O momento econômico da Coreia do Sul é comparável aquele vivido pelos EUA durante a década de 1920: “A melhora do nível de vida foi alcançada graças à espetacular evolução da técnica, à organização do trabalho, ao desenvolvimento das indústrias química, mecânica e elétrica, à concentração de empresas, ao consumismo acelerado e ao crescimento industrial estimulado pelo forte protecionismo.” O american way of life foi desenvolvido nessa época. O sinal mais significativo deste way of life é o consumismo, materializado na compra exagerada de eletrodomésticos e veículos.” Com a prosperidade na área de tecnologia e também na área cultura, podemos ver a korean wave promovendo aquilo quer seria o “korean way of life”.

O sucesso na área tecnológica e em diversos outros setores da Coreia do Sul, sem dúvida contribuíram também para a proliferação da chamada “sociedade de consumo”. O Korean Wave ao mesmo tempo que estimulou a cultura, fez dela um produto, preso a sua potência ou falta de potência comercial, a expansão cultural contribuiu para chamar a atenção para o país, mas também de certa forma moldar e limitar a visão e as referências do resto do mundo com relação a Coreia (Sempre para o lado positivo). Ao longo dos anos, Hollywood sempre dedicou tempo a promover o sonho americano e vender sua visão de mundo, com objetivos diferentes, mas de forma imperceptível. A hallyu, desde o início dos anos 2000, vem promovendo com sucesso, o conceito do “sonho coreano”

Além do investimento e Marketing feitos pelo Governo e pelas grandes empresas de entretenimento, muitos teóricos creditam o sucesso mundial do Korean Wave a ‘sensibilidade coreana’. Diferente da Europa e dos EUA, o alicerce moral da cultura nacional deles é o Confucionismo, filosofia de origem chinesa. Entre os principais pilares dessa moralidade estão a valorização dos laços familiares e da harmonia na sociedade.

“Os K-doramas oferecem entrelaçados temas de família, romance, amizade, artes marciais, guerras e negócios, e são vistos como capazes de lidar com os ‘seguros’: eles são menos explícitos comparados aos americanos, e aderem relacionamentos de um modo mais afetivo e significativo, mais emocional do que sensual (…)” “Um olhar mais atento mostra que diferentes novelas são populares em diferentes países por razões diversas. Americanos acham os doramas coreanos relaxantes e alegres; europeus acham os roteiros descomplicados e românticos. Asiáticos, por sua vez, descobrem estilos de vidas e tendências que pretendem imitar. A repressão sutil das emoções e intensa paixão romântica sem excesso de sexualidade ressoa entre os espectadores do Oriente Médio.”

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1 Comentário

  1. Jahitza

    Olá, tudo bem?
    Estou bucando referencias exatamente dessa informação:” Após o fim da Ditadura no país no início dos anos 90, o governo sul coreano decidiu investir na qualificação e exportação de sua cultura para demarcar e criar uma esfera de influência, necessária a consolidação do país e sua identidade. Assim, o governo, de maneira planejada, incentivou a criação de empresas e corporações nacionais, que desenvolvessem produtos culturais coreanos a fim de impedir a dominação cultural feita pelos países vizinhos. A partir daí, nasceram as grandes empresas de entretenimento do país.”
    Pode me passar suas fontes, por favor?
    OBgs!