EU, DANIEL BLAKE (Crítica)

Juca Claudino

Nós, Daniel Blakes

“Neoliberalismo, a ideologia por trás de todos os nossos problemas”. Este é o título de um artigo assinado pelo jornalista britânico George Monbiot no jornal The Guardian, que o justifica da seguinte forma: “Estar livre de sindicatos e de negociações coletivas [uma das pautas da agenda neoliberal, assim como as outras que neste trecho serão citadas] significa liberdade para diminuir salários. Estar livre de regulamentação significa liberdade para poluir rios, colocar em perigo os trabalhadores, impor lucros abusivos e fazer engenharia financeira. Estar livre de impostos significa estar livre da distribuição de riqueza que tira as pessoas da pobreza. (…) A financeirização teve impacto similar. (…) O pagamento de juros, esmagadoramente, é uma transferência de dinheiro dos pobres para os ricos. Como os preços dos imóveis e a retirada do financiamento estatal enchem as pessoas de dívidas (pense na mudança de bolsas de estudos por empréstimos educacionais), bancos e seus executivos têm ganhos substanciais.”

O modelo neoliberal, propagandeado e muitas vezes imposto por potências como o Reino Unido e os Estados Unidos e instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, se tornou influente no cenário político mundial entre os anos 80 e 90, cobrando menor intervenção estatal na economia, flexibilização das leis trabalhistas e o livre mercado, visando a intensificação da circulação de capital. E, de fato, a produção de riqueza se intensificou no mundo neoliberal. Todavia, isto ocorreu a custo de menor distribuição de renda, desmantelamento de serviços públicos e efeitos que, em geral, podem não ser tão benéficos para os trabalhadores, sobretudo o da piora na qualidade de vida ou a manutenção de um nível pouco apetecível de qualidade. Nos países periféricos, ele reforçou a má remuneração de empregos com baixa qualificação. Nos países em desenvolvimento, a saída de empresas e investimentos para regiões nas quais há maior atratividade fiscal (atrativo para os empresários, é claro), menor regulamentação trabalhista e mão de obra mais barata elevou o índice de desemprego. Sobretudo após a crise de 2008, cuja influência do neoliberalismo foi fundamental para que esta ocorresse. E é sobre esse segundo caso, o aumento da desigualdade e do desemprego nos países desenvolvidos (no caso, a Grã-Bretanha), que “Eu, Daniel Blake” dissertará.

O diretor, o britânico Ken Loach, é um dos maiores da história do cinema. Esquerdista convicto e de obra com cunho explicitamente progressista, podemos classificar seu cinema como feitor do “realismo social” e no qual a condição da classe trabalhadora, a marginalização social e a repressão política são marcas de seus roteiros – muito bem trabalhadas pelo realizador. Ganhou a Palma de Ouro com este “Eu, Daniel Blake”, e já havia vencido em 2006 por “Ventos da Liberdade”. Dirigiu filmes como “Terra e Liberdade”, no qual narra a história de um jovem revolucionário que lutou na Guerra Civil Espanhola contra os fascistas; e aquele que talvez é o seu mais influente filme, “Kes”, no qual denuncia a repressão disciplinadora das instituições e mecanismos sociais – como a escola, a igreja e, sobretudo, as relações de trabalho – na busca pela manutenção de certa ordem e hierarquia de poder a partir da docilização dos corpos.

“Eu, Daniel Blake”, narra a história do personagem-título (interpretado por Dave Johns), o qual fora marceneiro a vida toda e, agora, após ter uma grave condição cardíaca é diagnosticado como impossibilitado de trabalhar. Consequentemente, pede ao governo britânico o auxílio desemprego e, desde então, entraves após entraves se sucederão a ponto de que seu auxílio, necessário para pagar suas contas e manter seu consumo básico, nunca chegue. Blake é uma alegoria do indivíduo no período da Inglaterra tatcherista e no mundo neoliberal: sob o mantra da austeridade, pois o Estado tem de se ausentar da economia e abandonar o projeto de universalizar a oferta de bens e serviços sociais “em razão do custo fiscal sobre os empresários”, os serviços públicos foram sendo pouco a pouco desaparelhados e os auxílios estatais e legais à classe trabalhadora, que aumentou significativamente a qualidade de vida da população menos abastada da Europa Ocidental durante o New Deal – com redistribuição de renda e valorização do salário médio, dentre outras coisas -, foram sendo gradativamente abandonados, o que obviamente afetou negativamente a vida de boa parte de sua população. Vale lembrar que, segundo a organização humanitária Oxfam International, as políticas de austeridade aumentaram índices de pobreza na Europa e ainda a previsão caso se sigam tomadas medidas como essas é a de que haverão entre 15 a 25 milhões de europeus a mais em risco de pobreza em 2025. Como George Monbiot disse, “estar livre de regulamentação significa liberdade para poluir rios, colocar em perigo os trabalhadores, impor lucros abusivos e fazer engenharia financeira”.

O desmonte do Estado, produzido, por exemplo, por cortes nos investimentos sociais e privatizações, pode ter aumentado a produtividade capitalista e a margem de lucro de empresas poderosas à medida em que o Estado menos regulava a economia. Porém, tal crescimento veio com duras contas, como a concentração de renda e a perda de direitos sociais necessários à população. E, se há perda de direitos, o que o filme nos indica é a fragilização da democracia. Fragilização esta intensificada frente a um cenário no qual as grandes decisões desta, a “democracia” da contemporaneidade, assim como o escritor português José Saramago definiu, são tomadas em um esfera ocupada pelas grandes organizações financeiras internacionais, os “FMIs”, as “OMC”s, os “Bancos Mundiais” e tantas outras que são regidas por interesses patronais, suprimindo nosso poder de participação política.

Mas o grande destaque do filme, de fato, encontra-se em outros dois personagens: Katie (Hayley Squires) e China (Kema Sikazwe). Neles Ken Loach reflete as consequências não só das políticas de austeridade, mas sobretudo do desemprego, fato que nos últimos anos assolou a Europa com um aumento significativo depois da crise de 2008 e não foi completamente superado no continente. A primeira, mãe solteira de dois filhos, não paga as contas, não consegue comprar alimentos e está predisposta a qualquer humilhação para receber um salário. O segundo, levado a informalidade, importa ilegalmente tênis da China para revendê-los por preços menores em seus bairros. Em ambos os casos, explicita-se os efeitos não só materiais, mas psicológicos da marginalização e exclusão social. Aliás, talvez esta seja a grande moral do filme: o capitalismo é desmoralizante à medida em que nos reifica como instrumento para produção de lucros, e consequentemente humilhante à medida em que nos sujeita a exploração, ao desemprego, e a redução de nossa condição humana a números e cifras de salários que podem, de forma ou outra, fomentar o lucro de determinado empresário. Mas, obviamente, refiro-me a efeitos que não atingem o assim chamado andar de cima: segundo dados do livro “O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty, somente na Europa de Ken Loach a parcela da riqueza detida pelo 10% mais rico subiu de 60% em 1970 para 64% em 2010. No mundo, o 1% mais rico chega a deter 50% da riqueza do planeta. A maior injustiça denunciada pela visão de mundo do filme não está descrita na narrativa do roteiro, porém subentendida nesta: é o fato simples, porém pavorosamente incompreensível, de que todo o sofrimento vivido pelos muitos Blakes, Katies e Chinas do mundo se dá apenas para que a margem de lucro de uma porcentagem infinitamente pequena da humanidade seja maximizado.

Não é necessário dizer que o filme de Ken Loach é brilhante. Descortês e ávido no retrato de uma Inglaterra nos tempos de austeridade, concentração de renda e segregação social, mas enternecedor e empático no retrato de humanos em meio a desumanização capitalista. Ken Loach faz uma obra prima, generosa com a humanidade e, portanto, impávida pelo que isso significa em tempos como os nossos. Não é mero panfletismo o que Loach faz aqui, é uma bem argumentada exposição dos mecanismos de produção da desigualdade social e dos seus custos sociais injustos. Obrigado, “Eu, Daniel Blake”.

EU DANIEL BLAKE

SINOPSE

Após sofrer um ataque cardíaco e ser desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho, Daniel Blake (Dave Johns) busca receber os benefícios concedidos pelo governo a todos que estão nesta situação. Entretanto, ele esbarra na extrema burocracia instalada pelo governo, amplificada pelo fato dele ser um analfabeto digital. Numa de suas várias idas a departamentos governamentais, ele conhece Katie (Hayley Squires), a mãe solteira de duas crianças, que se mudou recentemente para a cidade e também não possui condições financeiras para se manter. Após defendê-la, Daniel se aproxima de Katie e passa a ajudá-la.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Ken Loach” espaco=”br”]Ken Loach[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Paul Laverty
Título Original: I, Daniel Blake
Gênero: Drama
Duração: 1h 41min
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 5 de janeiro de 2016 (Brasil)

Comente pelo Facebook