Elegia de um crime (Crítica)

Magah Machado

Documentário de Cristiano Burlan faz um levantamento da vida e das relações mais próximas de Isabel Burlan da Silva, sua mãe, brutalmente assassinada em Uberlândia em 2011.

Expor e discutir o feminicídio no Brasil é uma necessidade urgente. Só neste começo de 2019 a ocorrência deste crime de gênero praticamente dobrou: quase cinco por dia, contra 2,59 em 2017. O tipo mais preocupante é o cometido por um parceiro íntimo da vítima por ser um processo de violência (teoricamente) evitável, dada a escalada de formas de agressão.

É a este contexto que Isabel Burlan estava presa quando foi enforcada covardemente por seu namorado em casa, sem poder esboçar nenhuma reação. Seu filho, Cristiano, toma nas mãos a única arma que tem para tentar algum traço de justiça: sua câmera. E pela conversa com o serviço da polícia militar na abertura do filme sabemos que não será fácil. Será que o sistema viciado e corrupto vencerá?

O diretor colhe os depoimentos de amigos e familiares que reconstroem a mulher Isabel, mãe de Ricardo, Rafael, Cristiano, Kelly. Reconhecida por sua beleza e prontidão, não conseguem entender como ela pode aumentar as estatísticas deste crime hediondo. Porém, a dor que sentem é a da violência institucional nas periferias.

Permeando uma triste realidade de abandono social e falha de políticas públicas eficientes, Elegia de um crime fecha a “Trilogia do luto” (Construção, 2007 e Mataram meu irmão, 2013). Burlan, com seu olhar para o microcosmo da tragédia de sua família, amplifica toda uma problemática que enfrentam os moradores das periferias brasileiras.

A morte de seu pai Vanio, um trabalhador da construção civil, recebe uma homenagem reflexiva daquilo que de fato deixou de legado, em Construção (2007), ao começar uma família tão disfuncional em que um de seus filhos, Rafael, é assassinado com sete tiros no Capão Redondo, periferia de São Paulo, crime retratado em Mataram meu irmão (2013). Isabel vem preencher o último vértice deste triângulo de violência familiar e vinganças pessoais advindas dessas relações doentes.

Com quase nenhuma intervenção, como fez em Mataram meu irmão, Cristiano dá voz aos depoentes até o limite das lágrimas em longos planos e com eles compartilha a dor. Sempre com uma câmera objetiva alternando com outra subjetiva, a imersão no mundo de Isabel é muito vívida. O sofrimento tão palpável da filha Kelly, do filho Ricardo e do próprio Cristiano pode perturbar o espectador desavisado.

Em um desses momentos, vemos Cristiano praticando tiro com um revólver. É assustadora sua destreza com a arma. Temos aqui um ponto de inflexão bastante relevante na narrativa, sob novo ângulo a partir de então: se a polícia não pode fazer nada, o que é possível ser feito? Justiça com as próprias mãos? Um filme, responderá o próprio Cristiano. Ou, uma obra artística, neste caso.

Talvez só o rap do filho Ricardo (Isabel, mãe, guerreira, princesa), a canção do irmão de Isabel, tocada por ele ao violão, e, finalmente, a canção da neta adolescente sejam os únicos momentos de imaginação e lirismo para uma fuga dessa tragédia. A tal tragédia que fica para os sobreviventes.

O diálogo do feminicídio que aniquilou Isabel com a morte do irmão Rafael está explícito também na estrutura do documentário, com o mesmo ponto de partida (uma conversa telefônica), o enredo de ações relatadas em cada depoimento, suscitando idas e vindas nas possíveis elucidações das mortes, e, finalmente, a revelação de um personagem importante em cada narrativa.

No caso de Isabel, a revelação é tão rápida e limpa, porém não choca menos que as fotos cruas de Rafael na cena do crime que o vitimou. E isso se dá graças ao sentimento tão genuíno de crescente desamparo que Burlan tece nos intensos 90 minutos anteriores. A montagem feita em parceria com Renato Maia é contundente para que este impacto aconteça.

O longa está superando o caminho de Mataram meu irmão, ganhador do 18º Festival É tudo verdade em 2013 e do 40º Festival Sesc Melhores Filmes como melhor documentário nacional em 2014. Elegia de um crime talvez possa fomentar a discussão sobre feminicídio no Brasil e no mundo. O longa já venceu um prêmio ABD-SP (Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas), um EDT (Associação dos Profissionais de Edição Audiovisual) e no 23º Festival É Tudo Verdade, em 2018. Para Cristiano “meu filme é meu ato criminoso.” Para as mulheres, o crime da impunidade em casos de feminicídio tem que ser combatido a todo custo. Inclusive com filmes.

Elegia de um crime tem estreia exclusiva no CineSesc, em São Paulo, no dia 14 de março. Uma sessão gratuita acontece às 19h30, seguida de debate com o diretor Cristiano Burlan, a diretora executiva da ONG Patrícia Galvão, Jacira Melo, com mediação de Neusa Barbosa.

SINOPSE

Em fevereiro de 2011, a mãe do diretor Cristiano Burlan foi assassinada em Uberlândia pelo parceiro. Isabel Burlan da Silva teve sua trajetória marcada pela violência e pela pobreza, assim como todo o resto da família. Este é o terceiro filme da série “Trilogia do Luto”, os anteriores abordavam a morte do pai e do irmão de Burlan. Aqui, ele busca reconstruir a imagem e a vida da mãe.

DIREÇÃO

 Cristiano Burlan

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Cristiano Burlan
Título Original: Elegia de um crime
Gênero: Documentário
Duração: 1h 32min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 28 de março de 2019 (Brasil)

Comente pelo Facebook