CURUMIM (Crítica) Mostra SP

Pedro Vieira

Durante o final de 2014 e o começo de 2015, era quase impossível não assistir a um telejornal sem se deparar com uma matéria ou citação rápida sobre o caso de Marco Archer, o brasileiro condenado a pena de morte na Indonésia por tráfico de drogas. Archer foi fuzilado em janeiro de 2015, mas não sem antes fazer um pedido ao diretor Marcos Prado: ele queria que o cineasta gravasse um documentário sobre sua vida, que iria servir de exemplo às pessoas que se envolvem com o tráfico de drogas. É devido a isto que surge o documentário “Curumim”, cuja o nome é uma referência a um dos apelidos de Archer.

Mal a projeção do longa começa e o espectador já sabe que irá se deparar um documentário corajoso, uma vez que não há nenhuma possibilidade de um final “otimista” na história ali narrada. Para que tal narrativa seja desenvolvida, Prado utiliza filmagens realizadas pelo próprio Curumim no período em que ele estava preso e esperava sua hora chegar no “corredor da morte”. Estas imagens aparentemente prosaicas são mais fortes e poéticas do que parecem, pois conseguem revelar traços da vida de Archer e oferecer uma visão palatável do universo no qual ele está imerso. É um material precioso para um documentarista.

Prado ainda compõe sua obra com filmagens de arquivo, entrevistas realizadas junto a amigos e familiares do Curumim, fotos da juventude do protagonista e cartas escritas por ele ou por pessoas próximas, que são narradas em voz over. Todo esse material é mesclado de forma concisa, proporcionando um bom ritmo ao longa, que em nenhum momento deixa seu espectador confuso, ainda que a quantidade de informação a ser comunicada seja grande.

Algumas passagens do documentário tentam transmitir a imagem de que a vida de Archer é exageradamente triste e melodramática, e é neste ponto que o longa desliza. Ainda que haja uma tragédia que envolva toda a história, tentar torná-la um melodrama, com direito a música triste de fundo em contraposição a uma dança feliz de Archer, quebra o ritmo estabelecido pelo longa. Este ritmo por si só já é dramático o suficiente, sem precisar apelar para excessos.

É possível obter pelo documentário uma visão tridimensional de Archer, com o longa sabendo exporto tanto as características positivas, quanto as negativas deste indivíduo, como seu bom humor que alegrava a todos e seu pedantismo que o levou a acreditar que nunca seria pego pela polícia. Todo o seu passado é aqui apresentado: sua história como jovem rico com pais ausentes, a vida como esportista, a entrada no mundo das drogas e os motivos que o levaram a tentar traficar cocaína na Indonésia. Não sobra espaço para que qualquer visão estereotipada seja colocada sobre o protagonista.

O grande trunfo de “Curumim” é conseguir trazer “justiça” a Archer narrando sua história de modo eficiente e sem qualquer visão preconceituosa. É um longa duro em sua execução e em sua conclusão, mas necessário para que possamos compreender todo o sofrimento psicológico imposto sobre alguém no corredor da morte.

CURUMIM

SINOPSE

Os últimos dias e as últimas horas de Marco Archer, mais conhecido nas comunidades do surfe e da asa-delta pela alcunha de “Curumim”, o primeiro brasileiro a ser condenado à pena de morte por tráfico de drogas, após ser capturado pela polícia tailandesa em uma ilha nos arredores de Bali, um território indonésio localizado no Oceano Índico.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Marcos Prado
Título Original: Curumim
Gênero: Documentário
Duração: 1h 40min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 3 de novembro (Brasil)

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