As Ineses (Crítica)

Magah Machado

Comédia que estreia dia 14 de fevereiro nos cinemas pinça relações entre o branco argentino e o negro brasileiro a partir de confusão na maternidade.

Quando as coincidências se acumulam, a lógica se impõe. Quais as chances de duas amigas, que moram em casas vizinhas, engravidarem na mesma época, darem à luz no mesmo dia, no mesmo hospital, e, na cereja do bolo, serem vítimas de troca de seus bebês? Para resolverem o imbróglio, sacam da ideia simplória de escolherem os mesmos nomes para as pequenas: Inês Garcia. Este é o argumento central da comédia de lógica própria As Ineses (2018), uma co-produção de Argentina/Brasil.

O diretor Pablo José Meza, em parceria com Victoria Mammoliti, traz um roteiro que brinca com a infindável possibilidade cômica de troca de bebês na maternidade, com um texto bem articulado e coeso. Contudo, Meza junta caquinhos de preconceito, racismo, discussões de identidade, de paternidade, de maternidade, religiosidade e crenças populares e faz uma amálgama do bem com as amizades que suportam e superam tudo.

A família normativa de Carmem (Brenda Gandini) é quem dá as cartas no longa, para surpresa de ninguém. Morando em uma pequena área rural, a linda moça branca e loira é casada com Pedro (Luciano Cáceres), têm duas filhas loirinhas de olhos azuis que nem seus pais. Carmen está grávida do terceiro filho, que o pai aguarda ansiosamente que seja um varão. Sua amiga que mora na casa ao lado, Rosi (Valentina Bassi), branca com seus cabelos castanhos escuros, é casada com Ramón (o carioca André Ramiro), que é negro e brasileiro, naturalmente, pois argentino negro é nota de 3 pesos. Em sua primeira gravidez, Rosi se ampara na amiga para ter uma gestação tranquila e previsível.

Se dependesse apenas de Carmem e de Rosi, tudo seria realmente calmo. Mesmo a visível troca de bebês logo depois do parto não soava como um problema: poderiam destrocar as meninas assim que se comprovassem, nas descobertas e vivência do dia-a-dia, suas mães biológicas legítimas. Nada que sua amizade não pudesse corrigir.

Porém, os polos desestabilizadores gritam e contrariam uma decisão tão “absurda”: Dominga (María Leal), mãe de Carmem, de um lado, e Pedro, seu genro, de outro, criam as situações de constrangimento que, supostamente, deverão divertir a plateia. Opondo-se à decisão das mães e, ao mesmo tempo, um ao outro, vão catalizar ou o ódio ou o apoio irracional do espectador.

Vitimado no outro lado da história está Ramón, que sofre as maiores perdas no longa. Perde a confiança, perde a dignidade. Traído por seu inconsciente, quase perde a liberdade num improvável acidente, e, simbolicamente, perde sua Inês. Será uma coincidência também ou só uma reprodução de uma realidade insidiosa?

A produção é caprichosa, com uma cinematografia robusta que dá vivacidade e colorido às situações jocosas. O elenco entrega atuações exatas e se mostra bem afinado, inclusive o núcleo infantil. É uma pena que, porém, As Ineses, irrefletidamente, reforce visões estereotipadas de convívio interracial, conceitos de gênero e igualdade de oportunidades para negros e brancos.

SINOPSE

AS INESES conta a história de Carmen e Rosa. As amigas e vizinhas, que por coincidência tem o mesmo sobrenome, ficam grávidas e tem suas bebês no mesmo dia. Porém, para surpresa de ambas ao receber suas bebês, percebem que suas filhas parecem terem sido trocadas por engano após o parto. O casal loiro recebe a bebê morena e o casal moreno, a bebê loira. A confusão se instaura e as mães decidem colocar o mesmo nome para as duas garotas: Ines Garcia.

DIREÇÃO

Pablo José Meza Pablo José Meza

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Pablo Mezza e Victoria Mammolitti
Título Original: Las Ineses
Gênero: Comédia
Duração: 1h 14min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 14 de fevereiro de 2019 (Brasil)

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